Consoantes líquidas: ocorrência de estratégias de reparo em diferentes faixas etárias e gravidades do desvio fonológico
Liquid consonants: Occurrence of repair strategies in different age groups and severity of phonological disorders
Fernanda Marafiga Wiethan; Roberta Michelon Melo; Helena Bolli Mota
Resumo
Objetivo: investigar a relação dos tipos de estratégias de reparo utilizadas nas consoantes líquidas do Português Brasileiro de acordo com a faixa etária e a gravidade do desvio fonológico.
Método: participaram do estudo 120 crianças, sendo 41 do sexo feminino e 79 do masculino, com idades entre quatro e oito anos e onze meses. Todas as crianças empregavam pelo menos uma das estratégias envolvendo alguma das consoantes líquidas (/l/, /λ/, /r/, /R/) – substituição, semivocalização e/ou omissão – com emprego de 40% ou mais da estratégia no sistema fonológico. Os dados foram extraídos das avaliações fonológicas de crianças que não haviam recebido terapia fonológica, e a gravidade do desvio fonológico foi determinada por meio do Cálculo do Percentual de Consoantes Corretas – Revisado. Os dados foram submetidos à análise estatística por meio do Teste Exato de Fisher, com p<0.05.
Resultados: não houve diferença no emprego das estratégias de reparo utilizadas para a classe das líquidas conforme a faixa etária. Porém, foram observadas diferenças estatísticas na comparação entre a gravidade do desvio e estratégias de reparo das líquidas em relação a alguns dos segmentos e estratégias estudadas.
Conclusão: conclui-se que a variável extralinguística, faixa etária, não está diretamente relacionada com a utilização de estratégias de reparo para as consoantes líquidas no desvio fonológico. No entanto, atenta-se para a influência da gravidade do desvio fonológico sobre o uso destas estratégias, que varia conforme o segmento-alvo.
Palavras-chave
Abstract
Purpose: to investigate the relationship of the types of repair strategies used in the liquid consonants of Brazilian Portuguese according to age and severity of the phonological disorders.
Method: the study included 120 children, 41 females and 79 males, aged between four and eight years and eleven months. All children used at least one of the strategies involving some of the liquid consonants (/l/, /λ/, /r/, /R/) – replacement, semi-vocalization and / or omissions – using 40% or more of the strategy in the phonological system. Data were extracted from the phonological assessments of children who had not received phonological therapy, and the severity of phonological disorders was determined by the Percentage of Consonants Correct-Revised (PCC-R). Data were statistically analyzed by using Fisher's Exact Test, with p <0.05.
Results: there was no difference as for the use of repair strategies for the liquid consonants based on age. However, statistical differences were observed when comparing the severity of the deviation and repair strategies of liquid consonants for some of the studied segments and strategies.
Conclusion: we concluded that the extra-linguistic variable and age are not directly related to the use of repair strategies for the liquid consonants in phonological disorders. Nonetheless, we are aware on the influence of severity concerning phonological disorders on the use of these strategies, which varies according to the target segment.
Keywords
Referências
1. Hodson BW, Paden EP. Targeting intelligible speech: A phonological approach to remediation. 2nd ed. Austin: ProEd, 1991.
2. Lamprecht RR. A aquisição da fonologia do português na faixa etária dos 2:9 – 5:5. Letras de Hoje. 1993; 28(2):99-106.
3. Mezzomo CL. Aquisição da coda no português brasileiro: uma análise via teoria de Princípios e Parâmetros [tese]. Porto Alegre (RS): Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul; 2004.
4. Checalin MA. Estudo do Papel do Contexto Facilitador, segundo diferentes abordagens teóricas, na aquisição do r-fraco por crianças com desvio fonológico [Dissertação]. Santa Maria (RS): Universidade Federal de Santa Maria; 2008.
5. Mota HB. Aquisição segmental do português: um modelo implicacional de complexidade de traços [Tese]. Porto Alegre (RS): Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul; 1996.
6. Hernandorena CLM, Lamprecht RR. A aquisição das consoantes líquidas do português. Letras Hoje. 1997; 32(4):7-22.
7. Russo IP, Behlau M. As pistas acústicas das vogais e consoantes. In:______. Percepção da fala: análise acústica. São Paulo: Lovise, 1993. p. 25-50.
8. Carr P. English Phonetics and Phonology: an introduction. Oxford: Blackwell, 1999.
9. Castro MM. Estudo da estimulabilidade de crianças com desenvolvimento típico e com distúrbio fonológico para os fonemas líquidos laterais e vibrante simples [mestrado]. São Paulo (SP): Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo; 2004.
10. Wertzner H, Pagan-Neves l, Castro MM. Análise acústica e índice de estimulabilidade nos sons líquidos do português brasileiro. Rev CEFAC. 2007; 9(3): 339-50.
11. Stokes SF, Klee T, Carson CP, Carson D. A Phonemic Implicational Feature Hierarchy of Phonological Contrasts for English-Speaking Children. J Speech Lang Hear Res. 2005; 48: 817–33
12. Ferrante C, Van Borsel J, Pereira MMB. Análise dos processos fonológicos em crianças com desenvolvimento fonológico normal. Rev. Soc. Bras. Fonoaudiol. 2009; 14(1): 36-40.
13. Pagan LO, Wertzner HF. Análise acústica das consoantes líquidas do Português Brasileiro em crianças com e sem transtorno fonológico. Rev. Soc. Bras. Fonoaudiol. 2007; 12(2): 106-13.
14. Patah LK, Takiushi N. Prevalência das alterações fonológicas e uso dos processos fonológicos em escolares aos 7 anos. Rev CEFAC. 2008; 10(2): 158-67.
15. Grüdtner ACR. Os Processos fonológicos de estrutura silábica no desenvolvimento fonológico normal e nos desvios fonológicos evolutivos. V Congresso Brasileiro de Lingüística Aplicada; 1998; Porto Alegre: UFRGS; 1998.
16. Keske-Soares M, Pagliarin KC, Ghisleni MRL, Lamprecht RR. Aquisição não-linear durante o processo terapêutico. Letras de Hoje. 2008; 43(3): 22-6.
17. Spindola RA, Payão LMC, Bandini HHM. Abordagem fonoaudiológica em desvios fonológicos fundamentada na hierarquia dos traços distintivos e na consciência fonológica. Rev. CEFAC. 2007; 9(2): 180-9.
18. Vidor D. Aquisição das líquidas não-laterais por crianças com desvios fonológicos evolutivos: descrição, análise e comparação com o desenvolvimento normal. Letras de Hoje. 2001; 36(3): 715-20.
19. Lima LM, Queiroga BAM. Aquisição fonológica em crianças com antecedentes de desnutrição. Rev. CEFAC. 2007; 9(1): 13-20.
20. Wertzner H, Pagan L, Galea D, Papp A. Características fonológicas de crianças com transtorno fonológico com e sem histórico de otite média. Rev. Soc. Bras. Fonoaudiol. 2007;12:41-7.
21. Bernhardt B. Developmental implications of nonlinear phonological theory. Clin Linguist Phon. 1992; 6(4):259-81.
22. Yavas M, Hernandorena CLM, Lamprecht RR. Avaliação fonológica da criança: reeducação e terapia. Porto Alegre: Artes Médicas; 1991.
23. Shriberg LD, Austin D, Lewis BA, Mcsweeny JL, Wilson DL. The percentage of consonants correct (PCC) metric: extensions and reliability data. J Speech Lang Hear Res. 1997; 40(4): 708-22.
24. Shriberg LD, Kwiatkowski J. Phonological disorders I: A Diagnostic classification system. J Speech Hear Dis. 1982; 47(1): 226-41.
25. Adler-Bock M, Bernhardt BM, Gick B, Bacsfalvi P. The Use of Ultrasound in Remediation of North American English /r/ in 2 Adolescents. Am J Speech Lang Pathol. 2007; 16: 128–39.
26. Gierut J. Phonological Complexity and Language Learnability. 2007; 16: 6–17.
27. Ribas LP. Aquisição das líquidas por crianças com desvio fonológico: Aquisição silábica ou segmental?. Letras (UFSM). 2008; 36: 129-49.
28. Cruz GFA. O processo de semivocalização de líquidas laterais em posição pré-vocálica: uma revisão teórica. Letrônica. 2009; 2 (2): 48-57.
29. Vitor RM, Cardoso-Martins C. Desenvolvimento fonológico de crianças pré-escolares da região noroeste de Belo Horizonte. Psicol. Rev. 2007; 13(2): 383-98.
Submetido em:
26/04/2010
Aceito em:
28/07/2010
