Influência da disfunção oral do neonato a termo sobre o início da lactação
Influence of oral dysfunction on full-term newborn on the beginning of lactation
Karine Dutra Valério; Cláudia Marina Tavares de Araújo; Sônia Bechara Coutinho
Resumo
Objetivo: verificar a associação entre a disfunção oral e os fatores socioeconômicos, variáveis relacionadas à mãe e ao recém-nascido com o desempenho da mamada, durante as primeiras 48 horas de vida.
Métodos: estudo transversal, analítico, realizado em uma maternidade pública do Recife-PE. Foram entrevistadas todas as mães de crianças nascidas a termo entre abril e julho de 2008, perfazendo 588 binômios mãe/recém-nascido. A avaliação do sistema sensório motor oral do neonato e avaliação da mamada foram elaboradas, codificando-se como zero quando o item era "esperado/normal" e um quando "não esperado/de risco". A soma total dos itens "não esperados/de risco" resultou em um Índice de Disfunção Oral e um Índice de Avaliação da Mamada.
Resultados: verificou-se que 57,3% dos binômios mães/recém-nascidos apresentavam alteração da mamada, 43,9% apresentavam 1 e/ou 2 alterações e 13,4% maior número de alterações. A frequência de disfunção oral foi de aproximadamente 30%. Na análise de regressão logística entre as variáveis incluídas, apenas a disfunção oral manteve-se associada significativamente com o insucesso da mamada. Crianças com maior número alterações da função oral apresentaram chance 4 vezes maior de ter alteração da mamada.
Conclusões: sendo as disfunções orais uma das causas para o não estabelecimento da lactação, estas devem ser identificadas precocemente, visto que podem ser corrigidas, evitando o desmame. As maternidades devem possuir equipe capacitada no manejo do aleitamento, com um profissional que dê atenção especial às alterações do sistema sensório motor oral.
Palavras-chave
Abstract
Purpose: to verify the association between oral dysfunction and socioeconomic factors, variables related to mother and newborn with breastfeeding performance during the first 48 hours of life.
Methods: cross-sectional, analytical study, carried out in a public maternity hospital in Recife-PE. All mothers of full-term children born between April and July 2008 were interviewed, totaling 588 mother/newborn pairs. The evaluation of the newborn's oral sensory-motor system and breastfeeding evaluation were elaborated, coding as zero when the item was "expected/normal" and one when "not expected/at risk". The total sum of the "not expected/at risk" items resulted in an Oral Dysfunction Index and a Breastfeeding Evaluation Index.
Results: it was found that 57.3% of the mother/newborn pairs had breastfeeding alteration, 43.9% had 1 and/or 2 alterations and 13.4% had a greater number of alterations. The frequency of oral dysfunction was approximately 30%. In the logistic regression analysis among the included variables, only oral dysfunction remained significantly associated with breastfeeding failure. Children with a greater number of oral function alterations were 4 times more likely to have breastfeeding alteration.
Conclusion: since oral dysfunctions are one of the causes for the non-establishment of lactation, they must be identified early, as they can be corrected, preventing weaning. Maternity hospitals must have a trained team in breastfeeding management, with a professional who gives special attention to alterations in the oral sensory-motor system.
Keywords
Referências
1. Simard I, O'Brien HT, Beaudoin A, Turcotte D, Damant D, Ferland S, et al. Factors influencing and duration of breastfeeding among low-income women followed by the Canada Prenatal Nutrition Program in 4 regions of Quebec. J Hum Lact. 2005; 21(3):327-37.
2. Mizuno K. Neonatal feeding performance as a predictor of neurodevelopmental outcome at 18 months. Dev Med Child Neurol. 2005; 47:299-304.
3. Cooke M, Schmied V, Sheehan A. An exploration of the relationship between postnatal distress and maternal role attainment, breast feeding problems and breast feeding cessation in Australia. Midwifery. 2007; 23:66-76.
4. Weinstein ME, Oleske JM, Bogden JD. A selected review of breast-feeding recommendations. Nutr Res. 2006; 26:379-84.
5. Neiva FCB, Leone CR. Sucking in preterm newborns and the sucking stimulation. Pró-Fono. 2006; 18(2):141-50.
6. Castro AG, Lima MC, Aquino RR, Eickmann SH. Desenvolvimento do sistema sensório motor oral e motor global em lactentes pré-termo. Pró-Fono. 2007; 19(1):29-38.
7. Neiva FCB. Sucção em recém-nascidos: algumas contribuições da fonoaudiologia. Pediatria. 2000; 22(3):264-70.
8. Hernandez AM. Atuação fonoaudiológica com o sistema estomatognático e a função de alimentação. In Hernandez AM. O neonato. São José dos Campos: Pulso; 2003. p.47-78.
9. Araújo CMT, Silva GAP, Coutinho SB. A utilização da chupeta e o desenvolvimento sensório motor oral. Rev. CEFAC 2009; 11(2):261-7.
10. Andrade CRF, Gullo ACP. As alterações do sistema motor oral dos bebês como causa das fissuras/ rachaduras mamilares. Pediatria. 1993; 15:28-33.
11. Sanches MTC. Amamentação: enfoque fonoaudiológico. In: Carvalho MR, Tamez RN. Amamentação: bases científicas para a prática profissional. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2002. p.50-9.
12. Giugliani ERJ. Problemas comuns na lactação e seu manejo. J Pediatr. 2004; 80(5):147-54.
13. Araújo OD, Cunha AL, Lustosa LR, Nery ISN, Mendonça RCM, Campelo SMA. Aleitamento materno: fatores que levam ao desmame precoce. Rev Bras Enferm. 2008; 61(4):488-92.
14. Sanches MTC. Manejo clínico das disfunções orais na amamentação. J Pediatr. 2004; 80(5):155-62.
15. Marques MCS, Melo AM. Amamentação no alojamento conjunto. Rev. CEFAC. 2008; 10(2):261-71.
16. Sanches MTC. Dificuldades iniciais na amamentação: enfoque fonoaudiológico. [dissertação]. São Paulo (SP): Universidade de São Paulo; 2000.
17. Capurro H, Konicheszky S, Fonseca D, Caldeyro-Garcia R. A simplified method for diagnosis of
18. Neiva FCB, Leone CR. Development of sucking rhythm and the influence of stimulation in premature infants. Pró-Fono. 2007; 19(3):241-8.
19. Unicef/OMS. Manejo e promoção do aleitamento materno num Hospital Amigo da Criança; um curso de 18 horas para equipes de maternidades. Brasília; 1993.
20. Shimoda GT, Silva IA, Santos JLF. Características, freqüência e fatores presentes na ocorrência de lesão de mamilos em nutrizes. Rev Bras Enferm. 2005; 58(5):529-34.
21. França MCT, Giugliani ERJ, Oliveira LD, Weigert EML, Santo LCE, Köhler CV, et al. Uso de mamadeira no primeiro mês de vida: determinantes e influência na técnica de amamentação. Rev Saúde Pública. 2008; 42(4):607-14.
22. Volpini CCA, Moura EC. Determinantes do desmame precoce no distrito noroeste de Campinas. Rev Nutr. 2005; 18(3):311-9.
23. Meirelles CAB, Oliveira MIC, Mello RR, Varela MAB, Fonseca VM. Justificativas para uso de suplemento em recém-nascidos de baixo risco de um Hospital Amigo da Criança. Cad. Saúde Pública. 2008; 24(9):2001-12.
24. Wallace LM, Dunn OM, Alder EM, Inch S, Hills RK, Law SM. A randomised-controlled trial in England of a postnatal midwifery intervention on breast-feeding duration. Midwifery. 2006; 22:262-73.
25. Alves CRL, Goulart EMA, Colosino EA, Goulart LMHF. Fatores de risco para o desmame entre usuárias de uma unidade básica de saúde de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, entre 1980 e 2004. Cad. Saúde Pública. 2008; 24(6):1355-67.
26. Silva MB, Albenaz EP, Mascarenhas MLW. Silveira RB. Influência do apoio à amamentação sobre o aleitamento materno exclusivo dos bebês no primeiro mês de vida e nascidos na cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil. Bras Saúde Matern Infant. 2008; 8(3):275-84.
27. Oliveira LPM, Assis AMO, Gomes GSS, Prado MS, Barreto ML. Duração do aleitamento materno, regime alimentar e fatores associados segundo condições de vida em Salvador, Bahia, Brasil. Cad Saúde Pública. 2005; 21(5):1519-30.
28. Faleiros FTV, Trezza EMC, Carandina L. Aleitamento materno: fatores de influência na sua decisão e duração. Rev Nutr. 2006; 19(5):623-30.
29. Silveira RB, Albernaz E, Zuccheto LM. Fatores associados ao início da amamentação em uma cidade do sul do Brasil. Rev Bras Saúde Matern Infant. 2008; 8(1):1-8.
30. Boccolini CS, Carvalho ML, Oliveira MIC, Leal MC, Carvalho MS. Fatores que interferem no tempo entre o nascimento e a primeira mamada. Cad Saúde Pública. 2008; 24(11):2681-94.
31. Bertini G, Perugi S, Dani C, Pezzani M, Tronchin M, Rubaltelli FF. Maternal education and the incidence and duration of breast feeding: a prospective study. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2003; 37:447-52.
32. Bystrova K, Widström AM, Matthiesen AS, Arvidson ABR, Nyström BW, Vorontsov I, et al. Early lactation performance in primiparous and multiparous women in relation to different maternity home practices. A randomized trial in St. Petersburg. Int Breastfeed J. 2007; 2(9):1-14.
33. Bakoula C, Nicolaidou P, Veltsista A, Prezerakou A, Moustaki M, Kavadias G, et al. Does exclusive breastfeeding increase after hospital discharge? A Greek study. J Hum Lact. 2007; 23(2):165-73.
34. Bittencourt LJ, Oliveira JS, Figueiroa JN, Batista Filho M. Aleitamento materno no estado de Pernambuco: prevalência e possível papel das ações de saúde. Rev Bras Saúde Matern Infant. 2005; 5(4):439-48.
35. Mascarenhas ML, Albenaz EP, Silva MB, Silveira RB. Prevalence of exclusive breastfeeding and its determiners in the first 3 months of life in the South of Brazil. J Pediatr. 2006; 82(4):289-94.
36. Ramos CV, Almeida JAG, Alberto NSMC, Teles JBM, Saldiva SRDMS. Diagnóstico da situação do aleitamento materno no Estado do Piauí, Brasil. Cad. Saúde Pública. 2008; 24(8):1753-62.
Submetido em:
24/09/2009
Aceito em:
27/02/2010
